Pular para o conteúdo principal

Alocação de ativos

Em revisão

Alocação é a decisão sobre em que proporções o patrimônio fica exposto a riscos diferentes. Esta aula explica o que a decisão é e quais insumos a alimentam — e não emite nenhuma proporção.

9 min

Antes de continuar

  • Este conteúdo é educacional e não constitui recomendação de investimento, de produto financeiro ou de alocação de recursos. Nenhum texto aqui leva em conta a sua situação específica.
  • Esta aula descreve o que é a decisão de alocação e quais informações entram nela. Ela não indica proporções, classes de ativo, produtos, emissores nem carteiras de referência — por princípio do produto, e não por omissão.

O que a palavra significa

Alocação de ativos é a decisão sobre em que proporções um patrimônio fica exposto a grupos de risco diferentes. Não é a escolha do que comprar; é a escolha de quanto do total fica sujeito a cada tipo de coisa que pode dar certo ou errado.

O critério que organiza esses grupos é o mesmo que a aula sobre diversificação estabeleceu: o que separa um grupo de outro é a causa, não o nome. Duas coisas que respondem ao mesmo evento da mesma forma pertencem, para efeito de alocação, ao mesmo grupo — mesmo que tenham nomes, marcas ou categorias comerciais diferentes. E duas coisas com o mesmo rótulo podem depender de causas bastante distintas.

Por isso a pergunta da alocação não é "quantas coisas eu tenho?", e sim "a quais causas independentes o meu patrimônio está exposto, e em que proporção?". A primeira pergunta se responde contando; a segunda exige entender de onde vem o retorno de cada parte e o que precisaria acontecer para cada uma dar errado.

Por que a estrutura pesa mais do que o item

Existe uma hierarquia entre duas decisões que costumam ser tratadas com a mesma importância, e elas não têm a mesma importância.

A primeira decisão é estrutural: quanto do patrimônio fica exposto a um determinado tipo de risco. A segunda é de item: qual instrumento específico ocupa aquele espaço. A primeira domina a segunda, e o motivo é aritmético — a exposição a uma causa determina o quanto um evento ligado a ela pode mexer no total. Trocar um item por outro dentro do mesmo grupo muda o resultado dentro daquela fatia; mudar o tamanho da fatia muda o resultado do conjunto.

É uma inversão de foco em relação ao que costuma ocupar a conversa. A pergunta "qual é o melhor produto de tal categoria?" é mais fácil de fazer, tem resposta aparentemente objetiva, e é a pergunta que quase todo material comercial responde. A pergunta "quanto do meu patrimônio deveria estar exposto a esse tipo de risco?" é mais difícil, não tem resposta genérica — e é a que pesa mais.

Quais insumos alimentam a decisão

A decisão de alocação não sai de uma tabela. Ela é o resultado de um conjunto de informações sobre a vida de uma pessoa específica. Os insumos principais:

  • O horizonte de cada objetivo. Não existe "o seu horizonte" no singular: cada finalidade do dinheiro tem uma data, ou a ausência dela. Um mesmo patrimônio pode ter partes com prazos muito diferentes, e a aula anterior já mostrou que o prazo muda quais riscos são relevantes.
  • A capacidade de correr risco. É uma questão de fatos: quanta perda a sua situação suporta sem que algo importante deixe de acontecer. Depende da estabilidade da renda, das obrigações já contratadas e de quantas pessoas dependem desse dinheiro.
  • A tolerância a risco. É uma questão de comportamento: quanta oscilação você consegue atravessar sem tomar decisões que atrapalham o próprio plano. Capacidade e tolerância são coisas diferentes e podem discordar entre si — e, quando discordam, ignorar qualquer uma das duas cobra caro.
  • A necessidade de liquidez. Quanto do patrimônio precisa poder virar dinheiro disponível rapidamente e por um preço justo, como a aula sobre liquidez definiu. O que precisa estar disponível não pode estar exposto a ter que ser vendido em um mau momento.

E dois candidatos que aparecem o tempo todo, mas não são insumos dessa decisão: o humor do mercado no momento e o desempenho recente de alguma coisa. Os dois descrevem o passado imediato de um preço; nenhum dos dois diz nada sobre o seu horizonte, a sua capacidade de suportar perdas ou a sua necessidade de liquidez. Uma alocação que muda porque algo subiu ou caiu recentemente não está sendo decidida pelos insumos que a definem — está sendo decidida pelo noticiário.

Por que a resposta não pode vir de fora

Repare no que todos os insumos da seção anterior têm em comum: são fatos sobre a vida de uma pessoa específica. Nenhum deles é observável de fora.

Daí segue a consequência mais importante desta aula. Uma alocação pronta, oferecida antes de qualquer uma dessas informações ser conhecida, não pode estar respondendo à pergunta de quem a recebe — porque a pergunta ainda não tinha sido feita. Ela está respondendo a alguma outra pergunta: a de quem precisava de uma resposta padronizada para oferecer a muita gente ao mesmo tempo.

Isso não significa que quem oferece está agindo de má-fé. Significa apenas que a informação necessária não estava disponível no momento em que a resposta foi produzida. Uma divisão apresentada como "a correta", uma classificação atribuída por um questionário curto, uma carteira modelo publicada para um público amplo — todas compartilham a mesma limitação estrutural, independentemente da intenção de quem as produziu.

É também por isso que esta aula não entrega nenhuma proporção, e a plataforma não entrega em lugar nenhum. Não é cautela editorial nem falta de opinião: é o reconhecimento de que a resposta depende de informações que somente você tem. O que um material pode fazer é o que esta aula fez — dizer o que a decisão é e quais perguntas precisam estar respondidas antes dela.

Concentração acontece por omissão

Um último ponto, e talvez o mais prático: não decidir a alocação não deixa você sem uma.

Quem nunca tomou essa decisão tem uma alocação mesmo assim, montada aos poucos, por acaso: o que foi comprado primeiro, o que foi oferecido, o que pareceu boa ideia em algum momento, o que ficou parado porque ninguém lembrou de olhar. O resultado é uma estrutura que ninguém escolheu, e que por isso não tem relação nenhuma com o horizonte, a capacidade ou a necessidade de liquidez de quem a possui.

A concentração costuma chegar por esse caminho — não por uma aposta deliberada, mas por acúmulo. E ela também aparece em lugares que não parecem investimento: renda, emprego e patrimônio ligados à mesma atividade, ao mesmo setor ou à mesma região são, em conjunto, uma exposição concentrada, ainda que cada parte pareça independente. A alternativa à alocação decidida não é a neutralidade; é a alocação acidental.

Resumo

  • Alocação é a decisão sobre em que proporções o patrimônio fica exposto a grupos de risco diferentes — e o que define um grupo é a causa, não o nome ou a categoria comercial.
  • A decisão estrutural (quanto fica exposto a cada tipo de risco) pesa mais no resultado do que a escolha do produto específico dentro de cada grupo.
  • Os insumos da decisão são o horizonte de cada objetivo, a capacidade de correr risco, a tolerância a risco e a necessidade de liquidez.
  • Humor de mercado e desempenho recente não são insumos dessa decisão: eles descrevem preços passados, não a situação de quem decide.
  • Uma alocação oferecida antes de essas informações serem conhecidas não pode estar respondendo à pergunta de quem a recebe — por isso esta aula descreve a decisão e não emite proporção nenhuma.
  • Não decidir não é ficar sem alocação: é ficar com uma montada por acaso, e concentração costuma chegar exatamente assim.